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| | São Paulo, Paulo de Tarso e NEPSO | | | | A conversa garrava gostosa, pedacinhos de felicidade fruídos no diapasão seguro de histórias de vida cruzadas. Não tem erro. Eu, Carlos Augusto e Edegard, amigos com mais de quarenta anos de dedicação compartilhada, quando nos encontramos, dá vontade de reduzir o mundo àquele ambiente de trocas, prosaicas ou metafísicas. Nossas vidas correriam feito rio sem margens, não fossem os amigos. Na despedida - conversa que nunca se acaba – falo aos dois de um meu texto que sentou praça na capa do saite de campanha do Cristóvam por cerca de um mês, ao que o Carlos Augusto retrucou, informando-me da presença de nosso apóstolo da educação num seminário promovido pelo Instituto Paulo Montenegro, braço de responsabilidade social do Ibope, em São Paulo. Não me deixou escolha: “Você vai comigo”.
Viajar com o Carlinhos, assim eu o chamo, é certeza de conversa bem conversada, pontuada aqui e ali por nossas inquietações alvinegras e tricolores, e cá e lá pelas inquietações do varejo do mundo, que não são poucas. Ele fala do Instituto Paulo Montenegro com entusiasmo, com aquele ar de promissória resgatada no pregão da gratidão filial, seguro de estar fazendo justiça ao legado gigantesco do patrono do maior instituto de pesquisa do Brasil. Quem conheceu “seu” Paulo, conheceu; quem não, pior pra ele. Como no bom samba do Lupicínio, o patriarca dos Montenegro iluminava mais a sala do que a luz do refletor. Temperava a inteligência aguda com uma simpatia e humor cativantes. Impossível não se deixar capturar por seu campo de gravidade presencial. Era espontaneamente engraçado, conferindo aos textos pontuações de carga histriônica, como o cruzar caricatamente agitado das pernas a reconduzir aquela audiência de meninos embevecidos ao universo lúdico onde reinava. A casa dos Montenegro funcionava sob égide de d. Desirée, que jamais precisou recorrer à elevação do tom da voz para impor sua autoridade serena. Todos simplesmente a obedeciam, eu inclusive. Companheira sob medida para a efervescência criativa de “seu” Paulo, d. Desirée, agora em 2006 com seus oitenta anos recém-inaugurados, foi sempre o continente da família, terra firme, onde aportam e aportaram os barcos das perplexidades existenciais de seus quatro filhos.
O seminário era sobre o NEPSO, uma parceria do Instituto Paulo Montenegro com a UNESCO. O NEPSO é um projeto de responsabilidade social do IBOPE, centrado na utilização da pesquisa de opinião, dentro e fora do ambiente escolar, como ferramenta pedagógica, envolvendo alunos(ainda há alunos, ou compartilhadores?), professores e o entorno social da escola. Trata-se de uma experiência típica de pedagogia semântica, em que o processo é continuamente modificado pela experiência agregada: uma pedagogia do devir, em camadas. Já em seu quinto ano, o NEPSO mobiliza agentes educacionais em vários estados brasileiros e em alguns países latino-americanos, auferindo resultados palpáveis no tocante à melhora do desempenho escolar, notadamente nas áreas de Matemática e Português, diretamente emuladas por seu campo institucional e funcional. Ao pesquisar o mundo em sua volta, o professor e o aluno se instalam no mundo do “outro”, abrem seu campo de visão para muito além de suas opiniões confinadas ao mundo físico escolar. Perceber pela dialética que não há sociedade justa sem a inclusão do “outro” é um dos grandes benefícios trazidos por essa importante iniciativa do IBOPE, através do Instituto Paulo Montenegro.
O último dia, o que estive presente, começou com uma brilhante, precisa, palestra do apóstolo Cristóvam, um diagnóstico minucioso dos impasses civilizatórios brasileiros, esquadrinhando a uma platéia-já-cúmplice, ainda que sob a limitação de vinte minutos, a solução do “único caminho”, o da Educação. Sem uma revolução educacional, todo crescimento será em vão, sob o ponto de vista da efetiva redistribuição de oportunidades, nosso constrangimento nacional. Após a palestra do senador-apóstolo, assistimos encantados à apresentação de experiências do NEPSO, envolvendo alunos de todas as faixas etárias. Emocionante. Para cada apresentação, íamos sendo informados sobre a apropriação pedagógica ensejada por ela, e em seguida interagíamos com seus agentes. Vimos meninos, jovens, jovens-não-tão-meninos, relatarem o quanto foi importante pra a vida de cada um deles o aprender a considerar o “outro”.
Imerso naquele ambiente emocional, tocado pela aura construtiva de tanta gente envolvida no projeto da revolução educacional brasileira, numa ação integradora de iniciativas empresariais, comunitárias e governamentais, apropriando experiências e construindo uma sociedade com base na eqüidade, fui me lembrando do cruzar e descruzar de pernas do “seu” Paulo. Pelas vias do sonho voltei às tardes de Laranjeiras e Itacoatiara, onde percebia sua obstinação em fazer do IBOPE uma empresa socialmente responsável, cuja expertise estivesse sempre ao alcance dos agentes sociais, nunca baseada apenas em verdades nocionais, mas por verdades a construir. Vendo o imenso pôster do “seu” Paulo reinando sobre um lindo auditório, num prédio que carrega seu nome, pude perceber o quanto seu exemplo, lado a lado com a energia e serenidade de d. Desirée, foi tão corretamente absorvido por seus filhos. Não por acaso em São Paulo, terra que homenageia o santo xará do patrono, a quem coube erigir sobre a pedra de Pedro a construção de uma igreja não mais confinada a um canto místico do Oriente Médio, o santo que combateu o bom combate, o apóstolo maior do cristianismo.
Devo confessar: senti-me, ainda que discretamente, parte disso tudo.
Voltei para o Rio melhor; e para que servem as experiências de vida se não para nos fazer melhores?
Por: Beto Sales
| | | | Fonte: Instituto Paulo Montenegro | | | | Data: 07-12-2006 | | | |
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